A portuguesa que atravessou meio mundo com 5 cães e 8 gatos

A ligação com o primeiro cão foi tão forte que Carina diz ter sentido o momento em que Flappy morreu. “Estávamos a voltar do Algarve para Lisboa. Comecei a chorar e disse aos meus pais que estava com saudades dele. Quando chegámos percebi que tudo tinha acontecido à hora das minhas lágrimas. Nunca cheguei a saber a causa de morte.”

Carina acabaria mais tarde por fazer um curso de treinadora de cães. Na altura, queria apenas aprender a lidar com o seu Pitbull chamado Herbie, cruzado com Dogue Argentino, que teve já adulta, pelos 30 anos. Mas esse curso revelou-se essencial, anos mais tarde, quando aterrou pela primeira vez no Dubai.

Carina e o namorado, Stanley Cook.

Perante a tristeza da filha pela morte do primeiro cão, os pais juraram não voltar a ter animais domésticos, mas quebraram a regra ao fim de um ano: no Natal ofereceram-lhe um Cocker Spaniel. “Era óptimo para namorar. Tinha sempre uma boa desculpa para ir dar uma volta com ele à noite e aproveitava para estar com o meu namorado.”

A entrada na TAP como assistente de bordo coincidiu com a saída de casa dos pais. A família cresceu – entretanto os pais tiveram mais dois cocker – mas como passava muito tempo fora, deixou os cães na morada da família e passou a ter gatos. “São mais independentes e era mais simples de conciliar com a minha vida profissional da altura. Estavam sempre em casa.”

De Lisboa ao Dubai

Ainda na TAP Carina começou um part-time na Herbalife e acabou por sair da companhia aérea, numa altura em que a empresa de suplementos nutricionais estava com planos de abrir uma filial em Abu Dahbi. Despediu-se e através de um contacto de um amigo partiu para o Médio Oriente em 2010. “A Emirates foi a minha base. Vivia ao pé do aeroporto, uma zona que não é nada daquilo que imaginamos quando pensamos no Dubai. Não tinha os arranha-céus que vemos na televisão ou as ilhas, o meu prédio só tinha oito andares.”

Durante quatro anos, viajou em trabalho pela América, Austrália e Europa. A Herbalife, que a tinha feito largar a TAP, acabou por nunca se instalar no Dubai. Mas a portuguesa já andava com outros planos: deu uso ao tal curso de treinadora nos intervalos das viagens. “Foi assim que consegui ir colmatando a minha necessidade emocional de estar perto dos cães”, diz à NiT.

De uma simples ideia criou uma página de Facebook e estabeleceu como meta ter apenas um cliente por mês. O negócio cresceu depressa: “Ao fim do primeiro ano, em part-time, tinha treinado 60 cães. Quando não estava a voar dedicava-me aos animais”, conta. Se chegasse às sete da manhã, era essa a hora que ia treinar. Fazia consultas na casa dos meus clientes.

“Lá não há cães de rua. Geralmente, as pessoas só compram cães de raça. Mas fartam-se rápido, não sabem o que fazer com eles. Aos seis meses, o animal ainda nem sequer aprendeu o nome, quanto mais ir à rua. E foi assim que fui acumulando cães dos donos que desistiam deles.”

Vendia pacotes de dez aulas por mil euros. Com um tipo básico de treino, a portuguesa tornou-se conhecida e ganhou um bom dinheiro. Era a treinadora mais bem paga do Dubai e chegou a sair em reportagens na imprensa local.

“Os clientes não querem que eles façam chichi em casa, que não estraguem nada, que não sejam cães, no fundo.” Chegou a viver com vinte cães que resgatava dos donos desistentes, enquanto não arranjava novos donos. Foi assim que tomou a decisão de sair da Emirates para se dedicar em exclusivo à sua paixão de infância. “Mudei a minha vida toda.”

Uma odisseia até à Ilha do Príncipe

“Costuma-se dizer: escolhe um trabalho que gostas e nunca mais vais trabalhar na vida. E isso aconteceu comigo”, diz Carina, que após um ano dedicada ao seu novo trabalho conheceu Stanley Cook, 36 anos, que trabalhava com barcos e fazia pesca desportiva. Estava a ser construída uma ilha artificial, onde existia apenas areia, e Stanley, praticamente um desconhecido, desafiou-a para um projeto: levar os cães dos seus clientes a passear na ilha.

“Pensei que era uma boa estratégia de marketing, mas percebi que o intuito dele era outro”, brinca. “Quem é o homem que aceita uma mulher que vive sozinha com cinco cães e cinco gatos?”

Decidiram arriscar: queriam viver à beira mar, num local mais isolado, e ter um pequeno bar ou lodge de praia. E a oportunidade veio da Ilha do Príncipe: um hotel na praia para gerir, com seis tendas familiares, estilo sul-africanas. Problema: viajar com 13 animais, quatro deles de raça potencialmente perigosa.

Deixá-los no Dubai não era uma opção, mas a viagem tinha tudo para correr mal: desde logo porque as companhias aéreas se recusaram a fazer o transporte. “Tivemos de viajar em três diferentes. E sempre separados. Fizemos quatro vôos, pedimos ajuda a amigos, para também trazerem alguns gatos e o objetivo era chegar a Portugal. Daí seria mais simples trazê-los para São Tomé”, recorda à NiT.

Foi preciso mandar construir jaulas à medida e na partida, em Lisboa, o casal voltou a separar-se para viajar em vôos e companhias diferentes. Quando aterraram em São Tomé, em 2017, a jornada ainda parecia longe do fim: faltava uma travessia de 15 horas até à Ilha do Príncipe, numa viagem entre Dubai e o arquipélago africano — com passagem por Portugal — que se arrastou ao longo de um mês. Custo: 20 mil euros.

Carina e Herbie.

O casal já não está a gerir o hotel de praia. Em Maio deste ano começaram um projeto chamado The Organic Rescue Homestead. A ideia era seguirem para os Açores, sempre com os animais, e começar ali um projeto auto-sustentável, vocacionado para o turismo, estilo guest house, onde os animais resgatados da rua são parte fundamental da ideia. Enquanto não arranjam financiamento, Carina tem feito resgates de cães – “há muitos cães de rua” – e de papagaios.

“Príncipe é o último lugar do mundo onde existem grandes bandos desta ave, em vias de extinção. Não é fácil exportá-los daqui, mas são capturados e mantidos em péssimas condições, amarrados por cordas com 30 centímetros. São tão inteligentes como o cão. Há meses encontrámos três na praia em muito mau estado. Um deles voou no primeiro dia. Decidimos soltar os outros. E continuam a voltar sempre.”

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