QUEM SOCORRE OS ANIMAIS ACIDENTADOS?

Caía a noite, chuvosa e fria no sábado, 13 de fevereiro. Um cão com ambas as patas dianteiras fraturadas jazia, em sofrimento, na relva do pequeno jardim público da Praia da Rocha, nas traseiras do Hotel Júpiter. Que fazer nestas situações?

A situação chamou a atenção de alguns transeuntes condoídos com a situação aflitiva do animal. À dor acrescia-lhe o medo. Quando alguém se tentava aproximar para o ajudar, levantava-se e tentava correr antes de voltar a cair. Ao local acudiram os agentes da PSP Adelino Cunha e Aleixo Gouveia, Diamantino Duarte da «Loja da Cátia», e Maria Manuela Liza, voluntária da «Cadela Carlota & Companhia», associação de proteção animal com sede e jurisdição sobre o concelho de Lagos.

Todos se desdobravam em esforços de socorro, há mais de três horas. Preto e branco, raça indefinida, porte médio, este cão não tinha coleira desconhecendo-se se teria ou não dono. Teria sido abandonado ou perdido? Teria um chip que permitisse a sua identificação? Era urgente chamar um veterinário, ou levar o animal a uma clínica para ser assistido. Contudo, o que parece ser uma tarefa simples comporta custos e riscos. Um cão, quando abordado por estranhos, pode reagir e morder. Há o perigo de contágio de raiva, caso o animal não tenha as vacinas em dia.

A patrulha da PSP tentou contactar Osvaldo Mateus, veterinário municipal de Portimão, que nunca atendeu o telemóvel de serviço que lhe está atribuído. Contactadas várias clínicas veterinárias privadas, nenhuma se dispôs a se deslocar ao local. A única ajuda disponibilizada foi receberem o cão ferido, a troco dos devidos honorários.

Tentou-se outra via: os Bombeiros Voluntários de Portimão declinaram qualquer possibilidade de colaboração. O caso está fora da sua competência, justificaram.

Contactada a GNR de Portimão, onde existe uma equipa do Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA), rejeitou o caso. Só podem atuar quando se trata de espécies em vias de extinção.

Em boa verdade, bastaria ajudarem com o leitor de chips que possuem para ajudar a resolver o caso. Foi dada a informação que num sábado ao anoitecer, nenhum militar do SEPNA estava de prevenção.

Decidiu-se contactar a Associação de Defesa dos Animais de Portimão (ADAP), na pessoa de João Ferreira. Também declinaram a ajudar, alegando não terem recursos financeiros. Além disso, esta instituição sublinhou que já tem demasiados animais a seu cargo.

Maria Manuela Liza, da «Cadela Carlota & Companhia», associação de proteção animal informou a ADAP que tinha encontrado uma pessoa disposta a cuidar do animal. Só pedia que fosse tratado e transportado, só precisando para isso da colaboração da ADAP.

A tensão entre os voluntários das associações que supostamente partilham a causa era evidente. Questiúnculas passadas. Terão os animais carecidos de imediato socorro que pagar pelas rivalidades?

Perante a inflexibilidade da ADAP, a voluntária solicitou auxílio a Luís Sykes, da associação Carlota, que, vindo de Lagos, compareceria no local, com a ajuda dos agentes PSP pegou no animal, colocou-lhe açaime, com o seu leitor de chips verificou que o cão não tinha nenhum implantado, assumiu a sua pessoal disponibilidade para o transportar, tratar e posteriormente acolher, providenciando ainda pela sua adoção. O animal viria a ser operado pela veterinária Heike Rauterbergm, da Clinica Veterinária do Ferrel, em Espiche, e encontra-se neste momento bem.

 

Maus tratos a animais já são crime

Em vários países da Europa, cães e gatos já não são meras «coisas». Embora a lei não possa obviamente reconhecer os animais como pessoas, é-lhes dado um novo e terceiro género, com estatuto e direitos próprios, que é o de seres sencientes. Isto é, animais que, tal como os humanos, são capazes de perceber e de sentir prazer, angústia e dor manifestando emoções de felicidade ou sofrimento. Em Portugal, o Código Penal passou a criminalizar, desde outubro de 2014, o abandono e maus tratos a animais de companhia, como cães e gatos, estando previstas penas de prisão. No entanto, cabe à sociedade civil exigir soluções de intervenção com animais de companhia acidentados. Há quem defenda ser premente a criação de um sistema de socorro médico-veterinário no caso de acidentes graves com animais sencientes perdidos ou sem dono, designadamente quando os canis/gatis oficiais se encontram encerrados ou nos horários de folga dos veterinários municipais.

 

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